O Maní não é mais o mesmo. Esta foi a minha sensação depois de um almoço apenas ok na casa da chef Helena Rizzo.

Era domingo e minhas vontades queriam me levar a lugares que estavam fechados ou lotados. Pois é, nesta pandemia maluca alguns restaurantes permanecem fechados, outros estão trabalhando com dias e horários limitados e ainda há alguns totalmente lotados. Acabamos indo ao Maní, restaurante que não visitávamos desde o ano passado.

Conheço bem a casa. Estive lá na semana de inauguração e várias vezes ao longo dos anos. Acompanhei as muitas fases do Maní, desde seu começo com pegada mais natural, a fase molecular e a finalmente a alta gastronomia com foco em ingredientes brasileiros.

Estamos agora no início de uma nova fase, e não só para o Maní. Qualquer restaurante de alta gastronomia que queira sobreviver a pandemia do covid-19 precisa se adaptar. Esta é a fase da gestão eficiente de custos: de redução de equipe, espaço e cardápio, além da adaptação de receitas a sazonalidade e custo dos ingredientes.

Maní
Maní

Tudo isso ficou claro durante nossa última visita. Em princípio eu nem percebi. O lugar é o mesmo. Algumas mesas a menos, cardápio em QR code, clientes com máscaras na fila de espera e álcool gel nas paredes. Mas o mesmo lugar.

O cardápio está bem mais enxuto. Alguns clássicos como o nhoque de mandioquinha no dashi de tucupi felizmente seguem na cozinha, enquanto outros como os deliciosos chips de batata com rosbife deixaram o menu.

Aliás, estes chips de batata com rosbife sempre foram umas das minhas comidinhas prediletas aqui em São Paulo. Triste por não o ter como opção, eu perguntei para o garçom se seria algo permanente. A resposta: “nós estamos trabalhando apenas com ingredientes sazonais, pode ser que volte”. Desde quando vaca é sazonal?

Esse é um bom exemplo da minha impressão sobre o serviço. Frio, descuidado e demorado. Terrível? Não. Bom? De jeito nenhum.

E a comida, você pergunta?

Espumante e Caju Amigo
Espumante e Caju Amigo

Iniciamos com uma taça de espumante Cave Geisse e um drink, o Caju Amigo, ambos razoáveis. O espumante poderia estar alguns graus mais frio enquanto o Caju Amigo poderia ter mais equilíbrio. E uma apresentação bem mais bonita que esta ai…

Bombom de foie gras
Bombom de foie gras

Das entradinhas, nós ficamos com os dois bombons. O bombom de foie gras com goiabada e vinho do porto é outro belisquete do Maní que eu sempre adorei. E este, infelizmente, não é mais o mesmo. Aquela explosão da capa de goiabada com vinho do porto seguida pelo potente sabor do foie gras deu lugar a um bombom mais tímido e sem brilho.

Bombom de queijo de cabra
Bombom de queijo de cabra

O bombom de queijo de cabra com cupuaçu talvez tenha sido a melhor pedida do dia. Deliciosamente defumado, com o delicado sabor do queijo contrastando bem com o cupuaçu.

Na hora de pedirmos os pratos principais lembrei de algo que sempre me incomodou no Maní, e que ficou mais óbvio agora com o cardápio enxuto. Gosto muito das entradas e belisquetes, como o nhoque de mandioquinha, o chips de batata com rosbife e o refrescante ceviche de caju. Acho que nunca vi o mesmo nível nos pratos principais.

Desta vez fomos de moqueca e bife ancho.

Moqueca de peixe
Moqueca de peixe

A moqueca de pescado do dia com terrine de arroz, pirão e farofa foi uma boa pedida. Peixe suave com caldo rico e potente em equilíbrio com o arroz e a farofa crocante.

bife ancho
Bife ancho

O bife ancho com alface grelhada e béarnaise de pólen deixa bastante a desejar. Carne bem preparada, mas terrivelmente ordinária e acompanhada de uma béarnaise de pólen de sabor forte e amargo e uma genérica alface grelhada.

Para acompanhar os pratos nós pedimos mais um drink e meia garrafa de vinho.

clericot de caju
Clericot de Caju

Seguindo a linha de drinks com caju eu experimentei o surpreendente Clericot de Caju, com gin tanqueray sevilla, vinho branco, soda de caju e caju desidratado (?). Fresco e com dulçor na medida, opção bem superior ao Caju Amigo. A apresentação, mais uma vez deixa muito a desejar. E aparentemente neste dia o bartender estava sem caju desidratado.

Pedimos também meia garrafa do Domaine de Rochebin Bourgogne Pinot Noir. Vinho bem seco e ácido.

E foi este nosso almoço. Nada ruim, mas também nada ótimo, muito menos memorável. Some isto a um atendimento fraco e a conta de quase R$ 1.000 e o resultado é uma experiência negativa. Por este preço São Paulo tem restaurantes melhor para oferecer. Até por bem menos.

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